sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Prefeito flagrado em esquema de compra de voto evita comentar vídeo

Prefeito de Itamari, Waldson Carlos Andrade Menezes, conhecido como Kçulo (PT), candidato à reeleição, foi flagrado pagando R$ 2 mil para o agricultor Fábio de Souza Lima, 34 anos, em troca do seu voto e dos que diz dominar. Por Jorge Gauthier jorge.souza@redebahia.com.br
O cenário é uma fazenda na zona rural da cidade de Itamari, no Sul da Bahia. O enredo remonta aos tempos em que  o voto tinha um preço e um cabresto. Mas, o ano é 2012 e os personagens não estão nos livros do século passado da história da República do Brasil.
Em vídeo gravado em 18 de agosto, o prefeito da cidade, Waldson Carlos Andrade Menezes, conhecido como Kçulo (PT), candidato à reeleição, foi flagrado pagando R$ 2 mil para o agricultor Fábio de Souza Lima, 34 anos, em troca do seu voto e dos que diz dominar.

“Não tem ninguém olhando?”, previne-se o prefeito, antes de puxar o maço de dinheiro para entregar ao agricultor. Ele retira do bolso a quantia, conta as cédulas de R$ 100 e faz a entrega.
O apoio é justificado por Kçulo pela compensação financeira. “Espero que você esteja junto com a gente. Essa compensação que te falei seria em relação, assim, para fazer um trabalho junto com a gente,  para a gente (sic), para fazer a mudança de grupo”, afirma Kçulo, que exerce o primeiro mandato como prefeito.
Feijoada eleitoral 
Kçulo elabora ainda uma teoria para justificar a compra de votos: “Dinheiro é o tempero. Por que a política é uma feijoada. O que é o feijão? O feijão é o voto. E o dinheiro é o tempero, os acessórios. Então, se você tem um trocado, a feijoada sai gostosa, cheirosa, bonita, mas sem o feijão, não adianta ter só o tempero. Só com o dinheiro não faz”.

Em outro momento da gravação, Kçulo trata com naturalidade a troca de votos por “presentes”, quando Fábio diz saber que ele visita locais distribuindo “200, 300 (reais) para o povo”. “Por que eu tô ali é de botijão, de fralda, é de cama de casal, é de colchão, pois é, tem que sempre trazer uma lembrança mesmo, mesmo que seja um sabonete”, diz o prefeito no vídeo.
Gravações Fábio sempre foi apoiador de Kçulo. Mas, nesta eleição, decidiu votar no candidato da oposição, Valter Andrade da Silva Júnior, o Nêgo (PCdoB). Fabinho, como é chamado, relata que, quando plotou seu carro e enfeitou a fazenda com o nome de Nêgo, passou a receber propostas de assessores e de Kçulo para mudar de posição.
“Vinham pra mim e diziam: o homem (Kçulo) tem uma proposta boa. Você tem que vim (sic) pro nosso lado. Ficaram insistindo. Aí fiquei sabendo que eles estavam dando dinheiro a todo mundo na cidade e decidi gravar”, contou Fabinho, que gravou três encontros com o prefeito. 

Veja vídeo
O acordo, segundo Fabinho, era para que, no dia seguinte, ele participasse de um evento de montaria, cavalgando o cavalo de Kçulo no povoado do Mineiro. “Ele ainda mandou eu tirar (financiar) um carro, que ele pagava as prestações se ele fosse eleito”, completou o agricultor. 
No dia da gravação, quando Kçulo aparece entregando dinheiro a Fabinho, a mulher dele, Stephany Amparo de Almeida, usou uma câmera escondida no vestido para fazer a filmagem. “Não tive medo, não. Sei que tava fazendo a coisa certa”, disse a dona de casa que havia parido três dias antes. Por conta da repercussão do vídeo, a filha do casal ainda não foi registrada.
Temor “Não tive mais contato com ele. Gravei e fiquei com medo. Saí da cidade com a minha família. Minha menina nem tá registrada ainda, porque não tive coragem de voltar para ir em cartório”, contou Fabinho, que se refugiou em uma fazenda do  ex-prefeito da cidade Rui Lisboa.
A família do agricultor disse estar recebendo ameaças, principalmente depois do último domingo, quando o vídeo foi exibido em um comício de Nêgo. A oposição colocou o vídeo para ser exibido em um telão acoplado a um minitrio. Depois disso, o vídeo virou o grande o assunto da cidade de oito mil moradores.
“Estamos recebendo muitas ligações de número restrito, mandando a gente ter cuidado com a nossa vida. A gente fica com medo”, disse a mulher do agricultor. Fabinho alegou que o dinheiro está guardado para ser devolvido a Kçulo. “Não quero esse dinheiro, porque é dinheiro sujo”, afirmou agricultor.
Prefeito e assessores evitam comentar caso
A equipe de reportagem do CORREIO esteve em Itamari, na terça-feira, para entrevistar o prefeito Kçulo sobre as denúncias apresentadas no vídeo. Na prefeitura, por volta das 11h, o secretário de Comunicação, Professor Zezo, informou que ele estava em Salvador e forneceu para a equipe o telefone celular do prefeito e do motorista que o acompanhava, de prenome Alex.

O CORREIO ligou para Kçulo, que marcou para ser entrevistado em Salvador no final da tarde de terça. O encontro foi marcado no Edifício Center 3, no Horto Florestal, mas o prefeito não apareceu. Seu celular, o do  motorista e o do secretário de Comunicação permaneceram desligados.
Na quarta-feira,  desde o início da manhã, a reportagem tentou  falar com o prefeito que, por volta das 11h30, atendeu à ligação, disse que o sinal estava ruim e não ligou de volta. Depois disso, a reportagem contactou o motorista do prefeito, que disse que ele estava em Salvador. O motorista se recusou a informar onde estava Kçulo e ficou de transmitir o recado para o prefeito, que novamente não ligou.
Mensagens de celular foram enviadas para dois telefones do prefeito, mas em nenhum deles o CORREIO teve retorno. Ontem, durante todo o dia, o celular do prefeito estava desligado, assim como de seus assessores. Por telefone, o advogado da prefeitura, Wanderlei Costa, disse que não respondia por assuntos relacionados à vida pessoal do prefeito.
A advogada Aline de Souza Barreto, que defende o prefeito em processos no Tribunal Regional Eleitoral (TRE), também não atendeu às ligações.  Há dois dias, o vídeo foi postado na internet e já tem mais de 3 mil acessos.
Kçulo tem três processos em curso no TRE. Um deles pede a impugnação da candidatura por descumprimento do prazo de registro. Kçulo é candidato pela coligação Frente Popular com a Força do Povo.  Depois da divulgação do vídeo, a oposição disse que vai entrar com um novo processo pedindo a impugnação de Kçulo.
Cidade tem histórico de eleição violenta
Uma cidade dividida entre o PT e o PCdoB. Nas ruas de Itamari, as preferências eleitorais são claras e estampadas  nas portas das casas, com bandeiras nas cores e números do partido apoiado. Moradora do Alto do Cruzeiro, Rosângela Portugal dos Passos decorou a casa toda com o número 65 (PCdoB). “Não quero mais Kçulo”, disse.

A vizinha, Elisângela Oliveira da Hora, botou o 13  (PT) em todos os pontos visíveis da parte externa da casa: “Kçulo é um ótimo prefeito”, argumentou. Candidato a reeleição, o petista Kçulo é filho do ex-prefeito da cidade, Manoel Bié Andrade Menezes.
O momento mais tenso na vida política da cidade aconteceu no mandato dele, quando a militante política Dione dos Santos Ribeiro, que era da oposição à prefeitura,  foi torturada e morta em 1986. O caso ganhou repercussão nacional e chegou a ser exibido no programa Linha Direta, da TV Globo. O processo ainda tramita no Tribunal de Justiça da Bahia.
Servidores contrários alegam perseguição
Servidores da prefeitura de Itamari denunciaram ao CORREIO que há atrasos no pagamento de salários desde julho, mas só para quem tem voto declaradamente contrário ao prefeito.

O advogado Leandro Barreto, da APLB/Sindicato, núcleo de Itamari, enviou oficio à prefeitura, em 24 de agosto, listando o nome de 22 servidores da educação que estão com salários atrasados. Até ontem, os salários ainda não tinham sido pagos. Após contatos, a  prefeitura não quis comentar o assunto.
Fonte: correio24horas

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