Idoso recebeu alta há 15 dias, mas segue no hospital em Conceição do Coité por falta de cuidador
Um caso envolvendo um idoso de 60 anos, internado há mais de um mês em um hospital de Conceição do Coité (BA), vem chamando atenção pela complexidade e pelos relatos apresentados por duas mulheres que seriam filhas dele.
A Jornalista Rafaela Rodrigues tomou conhecimento nesta semana de que o idoso, identificado pelas iniciais D.S., está internado desde o dia 30 de julho no Hospital Português de Conceição do Coité, em decorrência de uma úlcera.
Segundo informações repassadas ao Portal Raízes, ele já teria condições clínicas para receber alta hospitalar, mas necessitaria de cuidados após deixar a unidade.
O impasse estaria justamente na ausência de familiares dispostos a assumir esses cuidados.
Segundo a advogada Laila Maria Almeida dos Santos, que representa as duas mulheres, sob assistência jurídica de Rafaela Almeida, as filhas, de 37 e 40 anos, afirmam não ter condições emocionais de cuidar do pai em razão de supostos abusos sexuais e episódios de violência que, segundo os relatos apresentados à defesa, teriam ocorrido durante a infância.
De acordo com a advogada, tarefas comuns no cuidado de uma pessoa dependente, como dar banho e auxiliar na higiene pessoal, poderiam representar para as mulheres uma situação de intenso sofrimento psicológico.
“Elas, inclusive, desenvolveram depressão por causa desse fato. Sem falar que não possuem condições financeiras e ainda são mães de menores de idade”, relatou Laila, advogada.
Relato chocante!
Ainda segundo a representante legal das mulheres, familiares chegaram a contratar uma cuidadora para auxiliar o idoso, utilizando recursos arrecadados por meio de uma campanha.
Conforme relato atribuído à profissional e apresentado pela defesa, durante o período em que prestava assistência ao idoso, ele teria feito comentários de que, supostamente sentia saudade “de transar com as próprias filhas”.
Ainda segundo esse relato, o homem teria passado a se tocar diante da cuidadora, que teria imediatamente repreendido o comportamento.
A reportagem ressalta que esse episódio é apresentado à imprensa como relato de uma testemunha e não como fato comprovado judicialmente.
Por que os supostos abusos não foram denunciados na época?
Questionada sobre o motivo de os supostos abusos não terem sido denunciados durante a infância, a advogada afirmou que, segundo suas clientes, elas teriam sido ameaçadas pelo pai.
“Elas relataram que não falaram para a mãe porque ele ameaçava matar a mãe das meninas, se matar e matar elas também”, afirmou.
Ainda segundo a advogada, quando a filha mais velha cresceu, teria contado o que supostamente acontecia para uma irmã do homem, que seria tia das meninas.
Entretanto, conforme o relato apresentado à defesa, a mulher teria pedido que ela permanecesse em silêncio para evitar conflitos familiares.
De acordo com a defesa, as duas mulheres somente teriam contado à mãe sobre os episódios muitos anos depois, quando já eram adultas, casadas e tinham filhos.
Relatos também apontam supostas agressões físicas
Além dos supostos abusos sexuais, a advogada afirma que as mulheres relatam episódios de violência física durante a infância.
Segundo ela, as filhas teriam sido agredidas e, em algumas situações, obrigadas a limpar o local onde teriam defecado ou urinado após as agressões.
A representante legal também relatou episódios envolvendo alimentação.
“Outras lembranças muito ruins que elas têm são de situações em que pediam um prato de comida e ele jogava a comida fora, a panela da comida fora, para não colocar a comida dentro de casa. Ele estava comendo, elas pediam comida e ele jogava fora”, relatou.
Filhas temem ser obrigadas a cuidar do pai e sofrer responsabilização.
Segundo a advogada, uma das principais preocupações das mulheres atualmente é a possibilidade de serem obrigadas judicialmente a assumir os cuidados do pai.
Além disso, elas temem que a recusa em prestar assistência possa resultar em algum tipo de responsabilização por abandono de incapaz.
A preocupação, segundo a defesa, está relacionada à possibilidade de que elas sejam cobradas judicialmente para garantir os cuidados necessários ao idoso, mesmo diante dos relatos de supostos abusos sexuais e violência que teriam sofrido.
A defesa sustenta que não se trata, segundo as mulheres, de uma simples recusa em prestar assistência a um familiar, mas de uma situação que envolveria possíveis consequências psicológicas decorrentes dos episódios relatados, incluindo com laudos psiquiátrico.
As filhas afirmam que não se sentem emocionalmente capazes de realizar cuidados íntimos, como dar banho, trocar roupas ou auxiliar na higiene pessoal do pai, diante das lembranças relacionadas aos supostos abusos.
A advogada afirma que busca uma solução que garanta a assistência necessária ao idoso, mas que também preserve as mulheres de uma situação que, segundo ela, poderia representar um novo sofrimento.
A defesa também defende que outros familiares do idoso sejam considerados na busca por uma alternativa para os cuidados necessários após a alta hospitalar.
“A gente quer uma sensibilidade por parte dos órgãos judiciários. A gente quer também que seja feita a Justiça de uma forma humana, sensível, e que, nesse momento, seja atribuída às vítimas compaixão e um olhar mais sensível. Que elas possam estar abraçadas pela lei no sentido amplo”, declarou Laila.
A advogada também defende que outros familiares do idoso participem da busca por uma solução.
“E também que a família dele, os irmãos dele, que residem em Conceição do Coité, possam ajudar e fazer o que deve ser feito, que é cuidar do irmão. Apenas isso que a gente quer”, afirmou.
É importante destacar que o simples fato de um familiar não assumir os cuidados de outro não permite concluir, automaticamente, pela prática do crime de abandono de incapaz. Eventual responsabilização depende da análise das circunstâncias concretas do caso e da legislação pelas autoridades competentes.
Outro episódio envolvendo um irmão do idoso
A história familiar também possui outro episódio envolvendo uma acusação criminal. Segundo informações da Polícia Civil, um dos irmãos do idoso, identificado pelas iniciais D. L. S., foi localizado por policiais da Delegacia de Conceição do Coité, no bairro do Cruzeiro, em 2019, e preso sob suspeita de estupro contra a própria enteada, que tinha 12 anos à época.
A situação processual atual de D. L. S. não foi confirmada pela reportagem até o fechamento desta matéria. Por isso, o Portal Raízes não afirma que ele permanece preso ou que tenha sido condenado sem a devida confirmação oficial.
O que dizem os órgãos responsáveis?
O Ministério Público foi procurado pelo Portal Raízes para esclarecer quais medidas podem ser adotadas diante da situação envolvendo o idoso e os relatos apresentados pelas mulheres. Até o momento não obtivemos resposta.
O CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) também foi procurado para informar quais providências de assistência e proteção social podem ser adotadas diante do caso que, também ainda não respondeu ao pedido da reportagem.
Defesa do idoso
A reportagem também procurou algum representante legal do idoso para que pudesse apresentar sua versão sobre os relatos feitos pelas mulheres, além de esclarecer a situação envolvendo sua internação e os cuidados necessários após uma eventual alta hospitalar.
Até o fechamento desta reportagem, não houve manifestação.
O espaço permanece aberto para esclarecimentos e para a apresentação da versão do idoso ou de seus representantes legais.
















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