Do antigo São Vicente às rodas de Reisado, distrito reúne patrimônio, festas populares e modos de vida que ajudam a contar grandes histórias.
![]() |
| Reisado de Tiquaruçu | Foto: Washington Nery |
Para quem vive no distrito há décadas, a principal característica de Tiquaruçu está justamente na vida tranquila de uma comunidade onde muita gente ainda se conhece. É assim que a agente comunitária de saúde Dalva Santos Melo, de 61 anos, que mora no local há 34 anos, descreveu o lugar ao Acorda Cidade. Foi ali que ela descobriu e construiu a vida.
![]() |
| Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade |
![]() |
| Foto: Kaio Vinícius | Acorda Cidade |
![]() |
| Foto: Kaio Vinícius | Acorda Cidade |
![]() |
| Foto: Kaio Vinícius | Acorda Cidade |
![]() |
| Asa Filho | Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade |
![]() |
| Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade |
Geograficamente, embora pertença à Princesa do Sertão, Tiquaruçu não faz divisa diretamente com a sede do município e se limita aos distritos vizinhos de Matinha e Maria Quitéria.
Uma igreja que guarda histórias
É em meio a essa história que aparece uma das construções mais importantes do distrito: a Igreja de São Vicente. O templo, que passou por ampliações ao longo dos anos, guarda uma lembrança especialmente conhecida em Tiquaruçu: foi ali que Maria Quitéria, heroína da Independência do Brasil, foi batizada em 27 de julho de 1798.
![]() |
| Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade |
![]() |
| Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade |
“Essa igreja não era desse tamanho, ela era menor. Quando Maria Quitéria foi batizada aqui, a pia era aqui na frente, atrás de mim, aqui na frente do altar. E depois que aumentaram a igreja, colocaram naquele cantinho ali, fizeram o memorial de Maria Quitéria, porque ela foi batizada aqui.”
![]() |
| São Vicente | Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade |
![]() |
| Dalva Santos Melo | Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade |
A igreja se tornou paróquia há cerca de oito anos e continua sendo um dos principais pontos de encontro da comunidade. O calendário religioso do distrito reúne a tradição da Festa de Reis, em janeiro; a festa do padroeiro, em abril; e a Festa do Lavrador, em setembro. E é justamente na Festa de Reis que a religiosidade se encontra com uma das manifestações culturais mais importantes de Tiquaruçu.
![]() |
| Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade |
![]() |
| Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade |
![]() |
| Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade |
![]() |
| Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade |
![]() |
| Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade |
Se você já ouviu falar da Folia de Reis, com certeza já escutou os seguintes versos:
“Ô de casa, ô de fora
Ô de casa, ô de fora
Maria vai ver quem é
Maria vai ver quem é
São os cantadores de reis
São os cantadores de reis
Quem mandou foi São José
Quem mandou foi São José”
![]() |
| Reisado de Tiquaruçu | Foto: Washington Nery |
![]() |
| Ireno Francisco, de 78 anos | Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade |
“Para mim, o Reisado hoje faz parte da minha vida. Eu venho de uma geração de agora. Mas já acostumei a sair com os antigos Reisados. E para mim, hoje o Reisado significa cultura. Porque a gente mora em um lugar pequeno e que não tem praticamente quase nada. Então a única coisa que ainda é viva hoje é a nossa cultura. E para a gente representar ela, a gente tem que fazer parte dela.”
![]() |
| Da esquerda para a direita- Dário Ferreira – 61 anos/Dione Teles – 42 anos/Ireno Francisco – 78 anos/ Martiniano de Jesus – 58 anos | Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade |
“Eu me sinto feliz quando eu subo, ou aqui em Tiquaruçu, ou em Feira, ou nos outros distritos, para chegar lá e mostrar o que a gente sabe fazer de melhor. Eu não só canto como eu danço, mas para mim é muito bom. Não só aqui em Tiquaruçu. Quando chama, a gente está lá”, disse Dione.
![]() |
| Reisado de Tiquaruçu | Foto: Washington Nery |
“Aí no ano de 2000 eu disse, eu vou fundar esse grupo. Chamei aqui alguns quilombolas, batedores de pandeiro, negros, que por sinal estão aqui ainda entre a gente, alguns, que não faleceram. E eu chamei aqui uma senhora que se chama Dona Gislene, que se chama Gigi, que é oriunda de uma família de batedores de pandeiro, de samba, de tudo, negro mesmo, propriamente dito, enraizado com a força do canto do sertão, a força do canto do trabalho. Fundamos esse grupo que é o Reisado de São Vicente.”
![]() |
| Foto: Washington Nery |
O imóvel, entretanto, sofreu problemas estruturais e deixou de ser utilizado. Segundo Asa, há expectativa de recuperação do espaço.
“De lá para cá isso virou patrimônio. Hoje nós somos ponto de cultura, é patrimônio imaterial. O grupo existe com as suas dificuldades, com os seus relevos, que sobem e descem, mas está persistindo ainda e a gente mantém”, explicou Asa Filho ao Acorda Cidade.
A cultura de Tiquaruçu, porém, não termina quando os pandeiros são guardados. Ela também aparece no São João, nas rodas de samba, na Festa do Vaqueiro, realizada na comunidade de Socorro, com cavalgada até a sede do distrito, e em experiências ligadas à agricultura familiar.
![]() |
| Foto: Luis Troina |
🔍Também há relatos antigos de que corpos que não se decompunham no cemitério eram levados para perto da pedra. Outras histórias falam de uma antiga estrada que passava pelo local e de pessoas que teriam ouvido clamores e assombrações durante a noite. Não há uma origem precisa para o mito. Estudos sobre a região levantam possibilidades relacionadas ao contexto histórico e ao preconceito contra pessoas de origem judaica no período colonial, mas não permitem afirmar uma explicação definitiva para a história da pedra.
![]() |
| Foto: Luis Troina |
“Todo mundo aqui, entre aspas, sabe o que é a Pedra do Judeu. É um patrimônio que tem histórico, só que não é valorizado. Por quê? Porque nem todo mundo conhece. Ela fica depois do berço do rio, aqui em Tiquaruçu, quando antigamente tinha uma igreja, que se chamava Igreja do Tanque da Roça, e o povo começou a conhecer essa pedra depois daí. Porque viram e acharam diferente.”
Da agricultura ao desafio de permanecer
A relação com a terra está entre as partes mais importantes da história econômica de Tiquaruçu. Asa lembra que o distrito já teve uma produção expressiva de fumo, milho, feijão e farinha, além de uma circulação comercial que movimentava a região e garantia trabalho para muitos moradores.
“Era um comércio pulsante. Tanto é que ninguém ficava sem trabalhar. Todos trabalhavam”, relembrou o cantor.
![]() |
| Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade |
![]() |
| Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade |
![]() |
| Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade |
“Principalmente emprego, que aqui o pessoal vai trabalhar em Feira Santana. Quem trabalha, quem não tem emprego aqui, vai trabalhar em Feira de Santana. Tem pessoas que saem às cinco da manhã para trabalhar em Feira, aí só voltam às 18h, 19h30”, disse Dalva.
Asa Filho também reforçou:
“A juventude aqui vive à mercê da situação que você vê, que tem esses programas do governo onde que é Bolsa Família, Bolsa Escola. Aí depois tem aposentadoria rural, que já vem de muitos anos, que também é um ganho para o trabalhador. Você sabe que a mulher chega aos 60, 58 anos, 56 anos, o homem aos 60, se aposenta primeiro do que por idade, trabalhando no rural. Isso já ajuda no sustento. E também o êxodo é por causa da seca também, as oportunidades. Então a juventude aqui estuda, alguns trabalham, outros trabalham fora daqui, até fora do estado, e isso mantém essa economia. Agora assim, você vê, tem uma indústria, tem uma grande loja, tem um grande mercado, tem uma coisa que gera emprego? Não, não tem. São pequenos comércios e pequenas propriedades”.
![]() |
| Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade |
![]() |
| Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade |
![]() |
| Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade |
![]() |
| Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade |
![]() |
| Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade |
![]() |
| Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade |
“Aqui é um lugar pacífico. Já tivemos três iniciativas de postos policiais. Não tem o que fazer, não tem violência. A polícia está aí para manter a ordem, oficialmente. É como, por exemplo, ali a delegacia fica intacta 2, 3, 4, 5 anos para registrar uma ocorrência. E, como é uma turma que gosta muito de falar, tem mais é um pouco de fuxico do que violência”, brincou.
Apesar da tranquilidade, Dalva fez questão de pontuar os problemas de infraestrutura. Entre as dificuldades citadas por ela estão o saneamento precário e o abastecimento de água. Como uma boa agente de saúde, ela também destacou que a saúde na região precisa melhorar.
“A saúde está muito precária ainda, tem muita coisa que falta ainda em termos de saúde. Demora de exames, laboratório, outros exames que as pessoas precisam. É mais difícil se encontrar vaga para esses tipos de exames que as pessoas necessitam. E aqui a gente labuta muito com a falta de saneamento. Causa também doenças e a gente vive aqui com o esgoto a céu aberto.”
Segundo Dalva, as interrupções no fornecimento de água também fazem parte da rotina de moradores. “Hoje, graças a Deus, a gente tem água encanada. Mas tem vezes que passa uma semana, duas semanas, um mês sem água. E a gente vai para o rádio, fala, e aí eles vêm. Passa dois dias, colocam a água, e depois volta, novamente falta”, relatou a agente.
O que permanece quando o tempo passa?
Mesmo com as dificuldades, é na relação com o próprio lugar que os moradores encontram razões para continuar preservando suas tradições. A história de Tiquaruçu aparece na igreja onde Maria Quitéria foi batizada, nas lembranças sobre a antiga Vila de São Vicente, na Pedra do Judeu, nas festas religiosas, nas antigas atividades agrícolas e, sobretudo, no Reisado que continua levando pandeiros e cantos pelas ruas.
Dione resume bem esse desejo de continuidade quando fala sobre o que pretende fazer com aquilo que aprendeu com os mais velhos: “Eu pretendo passar o que eu sei, o que eu aprendi no Reisado, para minha filha.”
Asa também enxerga nessa continuidade uma forma de impedir que a história do distrito se perca em meio às mudanças.
“Às vezes uns não querem nem saber o que é isso, querem saber que tem uma festa, mas esquecem que tem uma história por trás disso.”
![]() |
| Reisado de Tiquaruçu | Foto: Washington Nery |
Porque há histórias que pertencem a um distrito, mas ajudam a contar grande parte da história de uma Princesa do Sertão.
Por Jaqueline Ferreira | Acorda Cidade













































Nenhum comentário:
Postar um comentário
AVISO: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do ICHU NOTÍCIAS.
Neste espaço é proibido comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. Administradores do ICHU NOTÍCIAS pode até retirar, sem prévia notificação, comentários ofensivos e com xingamentos e que não respeitem os critérios impostos neste aviso.