A carta foi intitulada “Os planos de Deus são perfeitos”.
O Portal Raízes recebeu com exclusividade, nesta quinta-feira (17), uma carta do soldado da Polícia Militar Othon Carlos Ramos da Silva, acusado de envolvimento na morte do advogado Ernesto Reyes, ocorrida em 11 de fevereiro de 2025, em Conceição do Coité [relembre o crime].
O conteúdo foi encaminhado à redação pela esposa do militar, Luiza Maria, que, segundo informado ao Portal Raízes, estaria visitando Othon no Batalhão de Choque, em Lauro de Freitas.
No documento, escrito à mão, Othon relata o período de um ano e sete meses desde sua prisão e apresenta sua versão sobre a investigação, a prisão e elementos que, segundo ele, foram considerados no processo.
Intitulada “Os planos de Deus são perfeitos”, a carta começa com um relato sobre o período vivido pelo autor. Ele afirma estar enfrentando “um deserto extremo, doloroso”, mas diz compreender o momento como necessário e vivido “debaixo das graças de Deus”.
Othon afirma que atualmente resume seus sentimentos em duas palavras: “saudade e gratidão”. Em seguida, relata que pretende compartilhar detalhes de um processo judicial que, segundo ele, já dura um ano e sete meses e teria mudado completamente sua vida.
Mandado de busca e apreensão
De acordo com o relato, no dia 22 de fevereiro de 2025, Othon se preparava para ir ao quartel da Polícia Militar de Conceição do Coité para assumir o serviço quando policiais chegaram à sua residência para cumprir um mandado de busca e apreensão relacionado à investigação da morte do advogado.
Na carta, Othon afirma que, entre os objetos procurados, estava um tênis semelhante ao que teria sido utilizado pelo autor do crime.
Segundo ele, nenhum objeto dessa natureza foi encontrado.
Ele relata ainda que a suspeita envolvendo seu nome teria relação, entre outros elementos da investigação, com um vídeo antigo publicado por ele durante um treino na academia Soul Fit, no qual aparecia usando um tênis que, segundo afirma, seria semelhante ao procurado pela investigação.
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| Vítima |
Ainda segundo a carta, mesmo sem a localização do objeto, ele entregou voluntariamente seu aparelho celular quando solicitado e, posteriormente, foi conduzido à prisão.
Questionamentos sobre a prisão e o processo
O autor também questiona aspectos relacionados à sua prisão e ao processo judicial. Ele afirma ter aprendido, durante o período em que está preso, a diferenciar prisão temporária de prisão preventiva e questiona os fundamentos utilizados para a manutenção de sua prisão.
Em outro trecho, relata as dificuldades enfrentadas durante o período de detenção, mencionando a preocupação com familiares e amigos. Também afirma que chegou a perder a esperança de conseguir obter a liberdade.
Na carta, Othon questiona ainda a utilização de elementos considerados no processo e pede que as provas sejam analisadas de forma ampla. Entre os pontos mencionados estão dados relacionados a aparelhos telefônicos, informações de localização, mapas, análise de imagens e supostas divergências no relato do Ministério Público e da testemunha que estava com a vítima no dia da execução.
Ele também afirma confiar nas instituições e diz conhecer profissionais que atuam na Polícia Militar, Polícia Civil, advocacia, Ministério Público e Poder Judiciário.
Othon afirma que espera que os elementos existentes no processo sejam analisados tecnicamente e menciona depoimentos prestados durante audiência.
Segundo ele, há pontos relacionados à identificação do autor do crime e aos depoimentos das testemunhas que, em sua avaliação, precisam ser conferidos diretamente nas gravações da audiência.
O militar também menciona depoimentos de policiais militares que, segundo afirma, teriam declarado que ele estava no quartel da Polícia Militar no período relacionado à ocorrência.
A carta ainda faz referência a documentos e elementos que, segundo Othon, teriam sido juntados ou considerados posteriormente no processo.
Ele afirma que sua defesa questiona a origem, a confiabilidade e o contraditório em relação a determinados elementos e pede que sejam analisados conjuntamente com os demais dados constantes dos autos.
A carta apresenta exclusivamente a versão e os questionamentos de Othon Carlos Ramos da Silva sobre o caso. As afirmações contidas no documento não representam, por si só, confirmação dos fatos.
O Portal Raízes solicitou esclarecimentos ao Ministério Público e ao Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) sobre os pontos levantados na carta, entre eles uma possível divergência entre o que teria sido declarado por uma testemunha que, conforme informações apresentadas ao Portal e averiguadas no próprio processo, teria afirmado não ter visto o autor do crime e uma informação atribuída ao Ministério Público de que essa testemunha teria realizado um reconhecimento.
Até o fechamento desta matéria, os órgãos não haviam respondido aos questionamentos encaminhados pela reportagem.
O Portal Raízes também deixa aberto o espaço para manifestação da defesa da vítima, caso queira, esclarecer os pontos apresentados na carta ou se posicionar sobre o andamento do processo.
O espaço permanece igualmente aberto para manifestação do Ministério Público, do Tribunal de Justiça da Bahia e das demais partes envolvidas, nos limites de suas atribuições.
Othon Carlos Ramos da Silva permanece preso. Até a publicação desta reportagem, a data do julgamento pelo Tribunal do Júri ainda não havia sido definida.
Confira a carta na íntegra:
Transcrição
Os planos de Deus são perfeitos
Já são um ano e sete meses desse deserto, meus amigos. Um deserto extremo, doloroso, mas que, pela fé, compreendo também como necessário e vivido debaixo das graças de Deus, nosso Pai.
Hoje resumo meus sentimentos em duas palavras: saudade e gratidão.
Em outro momento quero falar sobre esses sentimentos. Hoje, porém, meu coração pede que eu conte alguns detalhes de um processo jurídico que já dura um ano e sete meses e que mudou completamente a minha vida.
No dia 22 de fevereiro de 2025, eu me preparava para ir ao quartel da Polícia Militar de Conceição do Coité para assumir o serviço e fazer aquilo que sempre amei: servir e proteger a comunidade coiteense. Mas não consegui chegar ao quartel.
Naquele dia, policiais chegaram à minha residência acompanhando o cumprimento de um mandado de busca e apreensão relacionado à investigação da morte do advogado Ernesto Júnior, que a luz perpétua o ilumine. Amém.
Entre os objetos procurados estava um tênis semelhante ao que teria sido utilizado pelo autor do crime. Nada foi encontrado.
A suspeita envolvendo meu nome teria relação, entre outros elementos da investigação, com um vídeo antigo que publiquei treinando na academia Soul Fit, usando um tênis parecido. O vídeo era antigo e aquele tênis já nem existia mais quando minha casa foi revistada.
Mesmo sem a localização daquele objeto, entreguei voluntariamente meu aparelho celular quando me foi solicitado. Ainda assim, fui conduzido à prisão. Nunca reclamei da vontade de Deus e jamais reclamarei.
A prisão é extremamente difícil. O difícil para quem está preso é ainda mais doloroso quando familiares são prejudicados, parentes que sofrem e amigos que ficam juntos. Mas acredito que, na hora em que tudo compreendermos pela fé, veremos que são planos perfeitos de Deus.
Por isso, em todos esses momentos, eu tenho repetido: “Eis-me aqui, Senhor. Seja feita a Tua vontade.”
Nunca tive qualquer desavença pessoal com Ernesto Júnior. Conheço sua atuação profissional, assim como praticamente toda a cidade, embora nunca tivesse tido atrito, discussão ou conflito com ele.
O julgamento, por isso, desde o início tenho esperado que tudo aquilo que existe dentro do processo seja analisado tecnicamente.
Passados um ano e sete meses, continuo preso. E é aqui que começam as perguntas que carrego comigo.
Na busca realizada em minha casa, segundo o que consta da minha realidade e da minha defesa, não foi encontrada arma, modelo de celular, roupa ou o tênis que pudesse estabelecer, por si só, uma ligação material entre mim e o homicídio.
Também existe nos autos, conforme sustenta minha defesa, material relacionado à análise de imagens e reconhecimento que precisa ser considerado em seu devido contexto.
Não quero substituir juiz, promotor, delegado, perito ou advogado. Quero que todos os fatos sejam analisados com o mesmo rigor, sejam eles favoráveis ou desfavoráveis à acusação.
Existe uma diferença jurídica importante que aprendi vivendo tudo isso na própria pele: prisão temporária e prisão preventiva não são a mesma coisa.
A prisão temporária possui prazo definido em lei, já a prisão preventiva depende da permanência de fundamentos jurídicos que justifiquem sua necessidade.
O que questionamos, através da defesa e pelos instrumentos previstos na própria Justiça, é justamente se esses fundamentos continuam presentes diante do conjunto de elementos existentes no processo.
Além disso, por qual motivo me negaram o direito de cursar a Universidade UNEB, à qual fui aprovado realizando o ENEM aqui mesmo no presídio?
Tiraram o direito de fazer a prova, mas me negaram o direito de estudar após ser aprovado. Qual a lógica?
Antes de conseguir exercer plenamente minha defesa, vivi outro momento extremamente difícil. Durante determinado período, minha defesa enfrentou dificuldades para obter acesso ao conteúdo do procedimento.
Minha família e meus amigos acompanharam essa angústia.
Foi quando aconteceu uma das coisas que jamais esquecerei: eles foram para a frente do fórum. Debaixo de chuva, minha família esteve lá. Meus amigos estavam lá. Pessoas que acreditavam que eu tinha direito, acima de qualquer opinião sobre culpa ou inocência, a conhecer aquilo que estava sendo utilizado contra mim e a exercer plenamente minha defesa.
Aquilo ficou marcado em meu coração.
Depois, finalmente, aconteceu a audiência.
Foram ouvidas testemunhas de acusação. Segundo o que ficou registrado, elas responderam às perguntas feitas perante o juiz.
Entre os pontos que considero fundamentais está aquilo que explicitamente foi dito pelos testemunhos sobre identificação de autor e sobre nosso sinal de sentimento de intimidação. Se existe gravação da audiência, existe uma forma objetiva de conferir o que cada pessoa realmente declarou.
É justamente isso que peço: que prevaleça aquilo que está documentado.
Na mesma audiência, policiais militares também prestaram depoimentos em minha defesa. Segundo esses depoimentos, eu estava no quartel da Polícia Militar no horário relacionado ao atendimento daquela ocorrência, em um serviço de 24 horas, e me preparando para retornar para casa.
Não acho que a palavra de um policial tenha valor maior do que a de qualquer outra pessoa. Pelo contrário, acho que ela tem o mesmo valor e deve ser analisada com a mesma seriedade.
Depois daquela audiência, eu e muitas pessoas que acompanhavam o processo acreditávamos que haveria uma mudança na minha situação. Ela não aconteceu.
Posteriormente, outros elementos foram juntados ou considerados no processo.
E aqui faço uma correção importante: a legislação processual permite, em determinadas situações, a juntada de documentos mesmo posteriormente. Portanto, minha discussão não é simplesmente dizer que “não poderiam juntar”. O que minha defesa questiona é se isso deve ser analisado tecnicamente — e, em determinado elemento, quem é a sua origem, qual é a sua confiabilidade e se foi assegurado o pleno contraditório sobre eles.
Entre esses elementos estão informações relacionadas a aparelho telefônico, dados de localização, mapas e análise de imagens.
Não quero que ninguém acredite apenas na minha palavra. Não. Pelo contrário. Quero que olhem os autos, olhem os depoimentos, que comparem os dados, que assistam aos depoimentos que ocorreram e o que foi dito sem o que foi posteriormente escrito. Que analisem os laudos. Verifiquem o horário. Que observem aquilo que foi apresentado e também aquilo que NÃO foi encontrado.
E, PRINCIPALMENTE, que a decisão seja baseada em provas e na lei.
Conheço profissionais extraordinários na Polícia Militar, na Polícia Civil, na advocacia, no Ministério Público e no Poder Judiciário.
Continuo respeitando as instituições.
Questionar atos praticados dentro de um processo não significa atacar uma instituição inteira. Instituições são maiores do que qualquer pessoa. E justamente porque acredito nelas é que acredito também que possíveis erros devem ser apontados, discutidos e corrigidos pelos meios legais.
Existem muitas outras coisas que ainda pretendo contar. Não hoje, nem aqui.
Quero terminar agradecendo a Deus. A vida acaba se tornando, para mim, uma universidade que eu jamais imaginaria frequentar. Uma universidade dura. Uma universidade que me ensinou que cobra caro.
Mas uma universidade que me ensinou sobre fé, família, amizade, ausência, saudade, gratidão e resistência.
Mesmo tendo sido aprovado no ENEM e desejando cursar o ensino superior, esse é outro sonho que, até aqui, não consegui realizar da maneira que imaginava. Ainda assim, acredito que Deus está me preparando.
para quê? Eu não sei.
Mas Ele sabe e isso me basta.
O futuro pertence a Ele.
O futuro que o Todo-Poderoso reserva para nós será permitido por Ele. Dele, ainda que hoje eu não consiga compreender todos os passos do caminho.
Obrigado à minha família.
Obrigado aos meus amigos.
Obrigado a cada pessoa que continua orando.
Obrigado a cada pessoa que pede apenas uma coisa: que a verdade seja encontrada e que a Justiça seja feita.
E, acima de tudo, obrigado a Deus.
“EM TUDO DAI GRAÇAS”
Graças e louvores se deem a todo momento.
Amém.
Até breve, pessoal.
Othon Carlos



















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