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sexta-feira, 29 de março de 2019

Convivência criativa no semiárido atrai pesquisadores e estudiosos no sertão da Bahia

O agricultor Abelmanto Carneiro de Oliveira, 48 anos, ficou conhecido através de muita invenção, criatividade e dedicação à sua propriedade. Ele transformou uma área de pouco mais de 10 hectares num local com múltiplas maneiras de convivência com o sertão baiano, servindo atualmente, de laboratório para outros agricultores, estudantes e pesquisadores do Brasil e do mundo.
No total são quase 16 km que separa a sua propriedade da sede do município de Riachão do Jacuípe, na Bacia do Jacuípe e a 186 km da capital baiana, Salvador.
Como um oásis no meio do deserto, a paisagem devastada pelas queimadas dos grandes latifúndios que servem ao sistema de pasto, muda na proporção que avançamos, surge uma caatinga verdejante, resultado do sistema agroflorestal: espécie de reflorestamento com espécies nativas da caatinga.

Fomos bem recepcionados naquela manhã de domingo em que o sol brilhava alto e anunciava, segundo o agricultor, pancadas de chuva à tarde: “o vento também tá soprando do Norte”: contempla o agricultor, se revelando um observador do tempo e do espaço em que vive.
Abel, como também é conhecido, já tinha feito a ordenha de seu pequeno rebanho de caprinos e bovinos, regado plantas e ido até a cidade (Riachão do Jacuípe) apresentar o Programa “Domingo Rural”, na rádio Jacuípe AM. Para ele o rádio é mais um elo importante com sua comunidade.

No programa ele fortalece vínculos e socializa conhecimentos que aprende Brasil à fora, através de cursos e intercâmbios que participa em Ongs, movimentos sociais, universidades, e demais setores rurais da sociedade civil organizada.
As participações dos ouvintes vão de perguntas sobre como combater formigas e pragas em plantas, técnicas de criações de animais, manejos do solo e outras diversidades do mundo rural. “Eu ouço todos os domingos, não arredo o pé do rádio enquanto Abel não dá o adeus final”, fala sorridente, dona Francisca Carneiro, 66 anos, ouvinte assídua.

O apicultor
No meio da conversa, fomos interrompidos: -Ele chegou! Avisou Jacira de Oliveira, 48, esposa de Abelmanto. Era Gean Carlos Cordeiro, jovem de 33 anos e morador da comunidade de Mucambo, a quase 2 quilômetros da casa do agricultor. Naquele domingo, Gean foi aprender o ofício de apicultor.
“Vocês querem vir também”? Nos convida Abel, que precisava assumir mais um de seus  compromissos com a comunidade. “É muito comum baterem à nossa porta em busca de apoio para os diversos tipos de lida no campo. Fazemos isso com prazer e gratuitamente, cobramos só o custo da viagem, quando a propriedade é muito distante, em outras comunidades”, justifica Abel.

Abel intercala as dicas para o aprendiz Gean, com “causos” rápidos, rompendo o silêncio para quebrar nossa tensão de marinheiros de primeira viagem. Depois de colhido, o mel é transportado por dois carrinhos de mão e ainda dentro dos favos (capas). No centro de processamento dos produtos da agricultura familiar, em um espaço bastante higienizado, os favos são desencapados e colocados no centrifugador para tirar a primeira etapa do líquido, ou seja, o de maior qualidade.
Além de também aproveitar a própolis, a cera é pesada e trocada em fábricas de Feira de Santana por capas artificiais para usar como divisórias dentro das novas colmeias. “Aqui não perdemos nada, tudo é transformado, quando não é vendido, geralmente fazemos a troca solidária”, explica. Sobre este tipo de troca, Abel nos deu outro exemplo: “estava sem tempo de produzir o queijo, então passei a trocar por leite com um produtor da comunidade. Além do leite, agora não falta queijo em minha mesa, agricultura familiar também é solidariedade”, completa.

De volta à varanda da Casa do agricultor
Após um copo de água trazido por Maria Clara, 12 anos, e única filha de Abel e Jacira, a conversa é reiniciada. Câmeras e gravadores já se tornaram comuns na rotina de Abel. “Na semana passada tivemos a visita da TVE”, lembra.
Considerado por Ongs, universidades, e movimentos comunitários como um agricultor familiar que tem se  destacado pelo protagonismo criativo em todo o semiárido nordestino (modesto) ele diz que é apenas um matuto que aprendeu a viver no próprio lugar: “O que mais me alegra é saber que nossa tecnologia também melhora a vida de nossa comunidade”, considera.

Sobre conviver com o semiárido, o agricultor diz que tudo começa com a vontade de ser feliz onde nasceu, da paixão e afeto pelas raízes. “Com o passar do tempo, a gente descobre que viver bem no sertão não é impossível e só com a mudança do olhar sobre o semiárido é que tudo muda e passa a ser viável.”.

Projeto de Educação Ambiental Vida do Solo e Desenvolvimento Sustentável
Foi observando a gradativa devastação das caatingas da região que Abel e sua comunidade criaram o Projeto de Educação Ambiental Vida do Solo pensando no reflorestamento e manutenção da caatinga. A propriedade possui um viveiro com 22 espécies de plantas nativas que estão quase em extinção como a Barriguda, mulungu, moringa, umburana, aroeira e outras a completarem o ciclo para serem replantadas.
No sítio de Marcolino Pitanga, 54, uns 2 quilômetros da propriedade de Abel, uma experiência do sistema agroflorestal comprova a importância do Projeto Educação Ambiental Vida do Solo e do protagonismo de Abelmanto para a sua Comunidade. “Vocês querem saber quem é Abelmanto? Então vamos em minha casa ver o que esse homem tem feito”, diz Marcolino, demonstrando gratidão ao amigo.
O Projeto Vida do Solo além de desenvolver, com a supervisão de Abel, a Oleicultura, já plantou em volta da casa de Marcolino, 14 mudas (adultas) de umbuzeiros associados à palmas e acerolas. Com a supervisão do Projeto, Marcolino conta que construiu um berçário de umbuzeiros, uma espécie de banco de mudas para replantar a espécie nativa em toda a sua propriedade. No berço, mais de 50 mudas esperam a fase adulta para serem replantadas em toda a propriedade:

“Temos como finalidade aumentar os pés de umbuzeiros para a manutenção da vegetação, mas também pensando em nossa produção de polpa de umbu que já fazemos em parceria com o Projeto Vida do Solo”, explica o popular, Marcula.
Participam do Projeto 28 famílias das comunidades próximas de Mucambo e Sítio Novo. Ambas recebem uma variedade de cursos e formações. Um dos cursos trabalha com Educação contextualizada para crianças, em parceria com algumas escolas e com o Projeto CAT (Conhecer, Analisar e Transformar).Uma vez por semana, elas entram em contato com temas sobre cidadania, preservação ambiental e desenvolvimento sustentável, tudo isso, em contato com a natureza.
“Materiais como plástico, papelão, vidro e alumínio são recolhidos na comunidade e vendidos para uma cooperativa de reciclagem de Riachão. O dinheiro ajuda a manter as ações na propriedade com lanche e almoço para as crianças, além de material de apoio para as atividades”, garante Abelmanto Carneiro, na condição de coordenador do Projeto.

Garrafas pets viram bomba d’água, liquidificador manual, aquecedor de água e artesanato no próprio sítio. “Para nós, a maior importância é que ele nos incentiva a conhecer melhor nosso próprio espaço e a viver no campo feliz com a nossa realidade”, lembra Evilaine Cunha Reis, 14 anos, estudante e ex-estagiária do Projeto Vida do Solo.

Geração de Emprego e renda
O Projeto de Educação Ambiental Vida do Solo é também responsável por articular um grupo de produção dentro da comunidade apoiando as iniciativas de produtores e produtoras rurais. Através da produção de polpas de frutas da região, como umbu, acerola, tamarindo, caju, cajá, manga e outras resistentes ao clima, eles participam de várias etapas do processo. Muitos escolhem apenas colher o fruto, ensacar e vender ao grupo de produção, mas, a maioria participa de todo o processo gerando mais renda à toda a família.
O empoderamento das mulheres da comunidade é visível, em dias de visitas na propriedade elas expõem seus produtos para venderem, cada uma ao seu modo. Os produtos vão de compotas de frutas, doces de cortes, geleias, à brincos, colares e bordados. A geração de maior renda é garantida nestes dias de mais necessidade de colaborações para atenderem as demandas dos visitantes.

“Abel é um homem de muitas invencionices” (Marcolino Pitanga)
Dentre muitas, uma das principais criações de Abelmanto é a bomba malhação, criada inicialmente, para irrigar hortaliças. Ao impulsionar com as mãos a bomba ganha pressão e eleva água para os canos através de canetas que servem de hastes circulatórias jorrando água para o raio de toda a plantação. A bomba é fabricada, basicamente, com garrafas pet, canetas bic, e canos. Com o sucesso da bomba malhação (nome dado por exercitar os membros superiores de quem as utiliza) o agricultor passou a receber diversas encomendas, inclusive da África, para onde enviou algumas. “Abel é um homem de muitas invencionices”, interfere o amigo Marcolino, enquanto o agricultor apresenta a bomba para um grupo de estudantes.

Abel produz outros tipos de bombas manuais para o uso de nutrientes em plantas, construiu barragens criativas e até o sistema sanitário e de reaproveitamento de água de sua residência, inclusive, aprovado pela especialista em saneamento básico rural do Instituto Federal Baiano (IF Baiano) a doutoranda em Meio Ambiente e Desenvolvimento, Maria Auxiliadora.

As notícias sobre as invenções do agricultor repercutiram bastante, chegando a grandes centros a partir da própria imprensa que o tornou ligeiramente conhecido no Brasil, e em especial, no semiárido nordestino. Por conta das inúmeras visitas, sua propriedade foi transformada em uma espécie de laboratório a céu aberto para agricultores, pesquisadores, Ongs, cooperativas, universidades, e demais interessados nas técnicas criadas pelo agricultor, sejam desenvolvidas e/ou adaptadas por ele.

Para o inventor Abel, na confecção de suas criações, o verbo principal é viabilizar, viabilizar tudo que facilite a vida do homem do semiárido. Atraídos pela fama da propriedade e suas inovações, pesquisadores de quase todos os estados do Brasil, e até de outros países visitam a propriedade para conferirem as invenções criativas no próprio laboratório a céu aberto do agricultor.

O espaço já recebeu pesquisadores da África, das Américas, como os Estados Unidos e também de países da Europa. Mas, rotina mesmo, são as incontáveis comitivas  de estudantes e pesquisadores do semiárido nordestino.

“A propriedade de Abelmanto tem uma ressignificação de convivência com o semiárido de extrema importância, porque a partir das experiências que ele desenvolve dentro do contexto do semiárido ele só fortalece a nossa identidade, desmistificando elementos que venham estereotipar a nossa região, especialmente, o sertão e a caatinga”, defende Maria Auxiliadora,professora e coordenadora do Núcleo de Estudos em Agroecologia do IF Baiano (Campus Serrinha)que ganhou em 2015 o nome de Abelmanto Carneiro de Oliveira.

Abel e sua relação com a água
No mínimo dois fatos curiosos marcam a relação desse sertanejo com a água. Primeiro, a pouco mais de dois quilômetros de sua casa, a natureza exibe um açude com uma boa extensão de água doce. Segundo, este mesmo açude contrasta com a falta de água encanada pela rede da EMBASA- (Empresa Baiana de Água e Saneamento) nas residências de Abel e vizinhança.

O custo para canalizar água da represa sairia caro demais para eles. No caso da EMBASA, embora a rede passe perto das propriedades, eles não contam com água encanada, o motivo, seja da empresa, seja de políticos da região, ainda é desconhecido por Abel e comunidade.

Apesar destas condições, somadas à falta de chuvas regulares no semiárido, o agricultor desafia a própria realidade. Atualmente ele reserva em sua propriedade quase 7 milhões de litros de água da chuva. Barreiros trincheiras, cisternas calçadão, barragens subterrâneas, tanques e outras formas de reservas garantem água para consumo humano, animal e plantações o ano inteiro, em especial, em tempos de estiagem.

O agricultor reconhece a facilidade que os governos federais à época deram com a criação de Programas como o P1+2 em parcerias com movimentos sociais organizados como a ASA (Articulação com o Semiárido) para a aquisição destas cisternas e formações para ele e sua comunidade saberem reservar o líquido em tempos de chuvas. Sobre estas e outras políticas públicas dos governos anteriores ele diz que as mesmas foram resultados do protagonismo que foi dado ao sertanejo.

“Foi um conjunto de fatores que em parceria com a sociedade civil organizada sinalizaram as reais necessidades do homem do semiárido. Estas políticas públicas foram capazes de me fazer acreditar ainda mais que aqui é um lugar bom pra se viver, com criatividade, estocagem de água e de alimentos”.

A propriedade e suas inovações
Abel construiu, recentemente e com recursos próprios, o Centro de Formação João Pitanga (homenagem ao seu pai) que serve às comunidades mais próximas com formações sócio educativas, culturais e políticas, mas também para visitantes e pesquisadores que vêm de longe.

O protagonismo de Abel provoca desenvolvimento regional e tem lhe tornado em um agente transformador de realidades. O Centro é também mais um espaço físico para o processamento adequado dos produtos da Agricultura Familiar, além de alojamento com banheiros para os visitantes que desejam ficar mais dias na “propriedade laboratório”.

“Aqui a juventude sempre solicita e nós cedemos para rodas de capoeiras, ensaios de quadrilhas e outras atividades de nossa comunidade”, lembra Abelmanto que se diz satisfeito em ver sua propriedade sempre em movimento.

Mesmo muito ocupado, Abel está sempre com um largo sorriso no rosto e nunca reclama de cansaço. Atende à todos com igual atenção e prazer. Muitas pessoas não entendem como ele consegue dar conta de tantas atribuições e com tanto bom humor. Mas ele compreende muito bem o porquê de sua alegria, sua paixão e persistência com o seu lugar. Encerrando a nossa conversa, Abel se emociona ao falar de seu protagonismo enquanto ser humano: “colaborador para um mundo melhor”, diz.

De agricultor à missão de agente multiplicador da convivência criativa com o semiárido, Abel diz que tudo começa com a necessidade de sobreviver, seguida da necessidade de transformar o olhar sobre o sertão, “Só depois, a gente passa a viver melhor nele”, finaliza.

Por: Laura Ferreira / Do CN

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