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terça-feira, 19 de março de 2019

Fé e Ciência no sertão: as expectativas de chuva no dia de São José

Dezenove de março é o dia em que o sertanejo olha ao céu com mais esperança do que o habitual. Ele ergue a cabeça e procura as nuvens carregadas que há tantos anos teimam em se afastar do sertão nordestino. 
Chover no Dia de São José é sinônimo de bom inverno e boas colheitas / Foto: JL Rosa
Diante de tamanha escassez, resta ao agricultor se apegar à fé. Conforme a crença popular, se chover no dia 19 de março, data em que se celebra São José, padroeiro cearense, o inverno tende a ser próspero e a colheita no campo farta. A ciência, no entanto, é irredutível diante da crença.

A realidade dos estudos meteorológicos destaca a distância entre as duas esferas. “Se chover no dia 19 não há correlação com inverno. Não indica que as coisas vão mudar. Por enquanto, o que se tem é essa realidade, com base em estudos”, destaca o meteorologista da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), Raul Fritz.

A avaliação do especialista pode ser explicada em números. Nos últimos dez anos, as precipitações caídas no dia do Santo não tiveram relação com o resultado da quadra chuvosa. Em 2009, por exemplo, a Funceme observou precipitações em pouco mais da metade das cidades cearenses. Em maio daquele ano, mês que marca o fim da quadra chuvosa, o órgão registrou 977,1 mm. Foi um dos melhores resultados da história.

Em contrapartida, em 2013, choveu em 151 municípios no dia 19 de março, o que representa 82% do total de cidades cearenses. Ao fim da quadra, um dos piores acumulados de chuva: apenas 364,4 mm.

Alheios aos números, os sertanejos se mantêm firmes na devoção. O Santo padroeiro é, para muitos, a única esperança de uma colheita próspera. No Sítio Baú, zona rural de Iguatu, na região Centro-Sul do Estado, o agricultor Emanuel Alves Vieira, 65, salta da cama antes dos primeiros raios de sol. Nas primeiras horas do dia ele repete o ritual iniciado em fevereiro. Com enxada na mão e fé no coração, ele limpa sua terra, com pouco mais de um hectare e se põe, solitário, a plantar milho e feijão. Nem mesmo as perdas o têm feito desanimar.
São José é o santo que traz esperança de chuva (Foto Reprodução: Nossa Sagrada Familia)
“Terça-feira é um grande dia”, almeja. Para ele, “chover no dia de São José é sim sinônimo de chuva e colheita”. O sentimento de esperança ecoa entre tantos outros sertanejos. Também moradora do Sítio Baú, Celestina de Oliveira, de 78 anos, profetiza, olhando para o céu, como será o inverno deste ano. “Teremos chuva. Amanhã há de cair água. A terra vai ficar molhada e conseguiremos tirar, pelo menos, o de comer”, torce. A poucos quilômetros de sua residência, outro agricultor se mostra confiante quanto as chuvas deste ano. No bolso direito da calça jeans com sinal da ação do tempo, Antônio Vieira Brito, 59, guarda um terço que denuncia sua fé católica. Ele mantém “com firmeza” a plantação de milho e feijão todos os dias da semana. Às quartas-feiras, porém, sai do roçado mais cedo para ir até a Igreja rezar um terço. “Se a gente não tiver fé, não teremos nada”, pontua.

Explicação da ciência
A ciência é mesmo irredutível. E, consigo, ela carrega números e explicações que embasam esse distanciamento entre chover no Dia de São José e o resultado final da quadra chuvosa. Fritz detalha que a data de celebração ao Santo está, coincidentemente, próxima à passagem do equinócio que marca a mudança de estação, do verão para o outono, no hemisfério sul.

“Essa mudança é favorável à atuação da Zona de Convergência Intertropical”. Esse fenômeno é o principal indutor das chuvas durante a quadra chuvosa no Nordeste. Independentemente da quantidade de precipitações hoje, Raul Fritz afirma que o prognóstico inicial do órgão prevalece.

Para o período chuvoso de março a maio de 2019, a Funceme indica 40% de probabilidade de precipitações em torno da normal climatológica, 35% para a categoria abaixo da média e 25% acima dela. “Na parte do meio-norte do Estado, a tendência é de chuvas acima da média e, no meio-sul (centro-sul) do Ceará, probabilidade de chuvas abaixo da média”, acrescenta.

Esperança
Para o padre Francisco Ivan de Souza, pároco da Igreja de Fátima de Fortaleza, não há contradição entre fé e ciência. “Elas se completam”, avalia o religioso. A ciência, para ele, “chega a um ponto que não consegue mais explicar, e a fé vai além, pois ela é bem mais ampla”. Para justificar os anos de estiagem, o padre lembra que é importante considerar todas as previsões científicas, “mas sem nunca abandonar a fé”. Conforme Pe. Ivan, “o agricultor é muito sábio e firme nas suas convicções, vamos aguardar boas chuvas e boas colheitas”

Informações do Diário do Nordeste / Foto: JL Rosa 

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