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quarta-feira, 22 de julho de 2020

Cometa atinge aproximação máxima da Terra nesta quinta

O cometa Neowise tem causado sensação no hemisfério Norte e frustração no Sul. Acima da linha do Equador, fotos e observações maravilhosas do astro e de sua cauda exuberante. Abaixo dele, o mundo foi privado do espetáculo --até agora.
A partir desta semana, o cometa vem ganhando terreno no céu austral, e a essa altura já pode ser procurado no Brasil próximo ao horizonte, logo após o poente.

Os astrônomos costumam dizer que cometas são como gatos: a gente nunca sabe como vão se comportar. Então não é fácil prever o tipo de espetáculo que ofertarão. E o caso do Neowise é emblemático: antes de março, ninguém nem sabia que ele existia.

O astro foi detectado pela primeira vez no dia 27 daquele mês, pelo satélite Neowise, da Nasa. Trata-se na verdade de um telescópio espacial de infravermelho que, em sua concepção original, designada Wide-field Infrared Survey Explorer (Wise), se destinava a pesquisar objetos distantes, dentro e fora do Sistema Solar.

Em 2010, após a missão de mapeamento do céu, o satélite foi redesignado Neowise e passou a ser usado para buscar objetos próximos à Terra (conhecidos pela sigla NEO).

No dia 31 de março, o objeto descoberto com os dados do satélite foi confirmado como um cometa e no dia seguinte recebeu sua designação sistemática. É o nome completo do cometa, dado pela União Astronômica Internacional (IUA): C/2020 F3 Neowise.

A letra C, é claro, indica que se trata de um cometa. Mas especificamente um cometa não periódico, ou seja, que está fazendo sua primeira visita registrada pelo interior do Sistema Solar. Quando um cometa é periódico, ou seja, foi registrado em múltiplas passagens, ele ganha a letra P.

O primeiro e mais famoso dos cometas P, claro, é o cometa 1P/Halley. Da mesma forma que o atual cometa todo mundo só chama de Neowise, pouca gente além dos astrônomos se dá ao trabalho de chamar o Halley de 1P. A sigla é meio autoexplicativa: ele foi o primeiro cometa a ser identificado como periódico, graças aos esforços do astrônomo britânico Edmond Halley, nos idos de 1705.

Seja o cometa periódico ou não, sua origem remonta às profundezas do Sistema Solar. Seus locais de residência originais podem ser o cinturão de Kuiper, localizado além da órbita de Netuno, ou a difusa nuvem de Oort, ainda mais distante. Lá, esses agregados de gelo e rocha que consistem em restos do processo da formação dos planetas, ocorrida há 4,5 bilhões de anos, repousam em berço esplêndido --mas não eternamente em alguns casos, pois encontrões ou trombadas entre eles podem acabar atirando-os para dentro do Sistema Solar.

O Neowise é um desses que de algum modo vieram parar em nossa vizinhança e agora fazem uma breve visita. Pela trajetória, os astrônomos podem calcular o tempo que ele leva para dar uma volta inteira. No caso dele, eram 4.400 anos. Mas, ao passar de raspão pelo Sol em 3 de julho, a gravidade solar o acelerou e aumentou seu período orbital para 6.700 anos. Portanto, não dá para contar com a perspectiva de vê-lo numa próxima passagem.

Os cometas se tornam mais brilhantes conforme se aproximam do Sol, e a radiação passa a sublimar (nome que se dá ao processo em que gelo passa diretamente a vapor) seus componentes voláteis. É esse processo, bem como a posterior interação dos gases com a radiação do Sol, que produz a coma e a cauda, a atmosfera estendida que caracteriza esses astros.

Após passar a meros 43 milhões de quilômetros do Sol, o cometa se tornou bastante brilhante. Assim que se afastou o suficiente do astro, os observadores do hemisfério Norte puderam notá-lo até mesmo a olho nu, primeiro pouco antes do amanhecer e depois logo após o anoitecer. Nas latitudes mais altas do Norte, o aspecto circumpolar do astro (como se apenas girasse ao redor do polo norte celeste) o manteve no céu, próximo ao horizonte, durante toda a noite.

A partir desta semana, o astro passou a ser visível também no hemisfério Sul, começando pelo Norte do Brasil e ganhando mais terreno a cada dia. A essa altura, em Brasília e em Belo Horizonte ele já pode ser procurado. Em São Paulo e Rio de Janeiro, vale a pena a tentativa entre esta quarta (22) e quinta-feira (23), para quem tiver horizonte livre na direção noroeste, pois o cometa estará muito baixo no céu após o poente.

A cada dia que passa, a diferença de tempo entre o pôr do Sol e a descida do Neowise para baixo do horizonte ganha cerca de 20 minutos. Então, nesta quarta, em São Paulo, o Sol se põe às 17h41, e o Neowise dali a pouco mais de uma hora, às 18h49. Na quinta, o Sol desce às 17h41 de novo, e o Neowise só às 19h10. E assim por diante.

Contudo, o desânimo é que, a cada dia, ele perde mais o brilho. Espera-se para os próximos dias magnitude entre 3 e 4 (quanto menor esse número, mais brilhante, e o limite do olho humano, em céus sem poluição luminosa, é de 5,5).

"Mas antes de observar temos que saber uma coisa", explica Eder Canalle, da REA-Brasil (Rede de Astronomia Observacional). "Os cometas são corpos extensos, assim a magnitude deles é integrada, ou seja, pega-se todo o brilho da área do cometa e se considera num único ponto para que se tenha a magnitude, dessa forma, ver um cometa com magnitude 3,9 não é a mesma coisa que ver uma estrela com magnitude 3,9."

Em resumo, é mais difícil. Por isso, Cassio Barbosa, astrônomo da FEI (Fundação Educacional Inaciana), deixa uma sugestão. "A dica para cometas é observar de canto de olho e reparar alguma manchinha", diz, indicando que, na visão periférica, a retina é mais sensível à luz.

Um binóculo ajuda, principalmente nas grandes cidades, onde a poluição luminosa atrapalha. E aproveite os próximos dias, porque, depois disso, só em 6.700 anos.

 Por Salvador Nogueira | Folhapress

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